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terça-feira, abril 28, 2009


S o l i d ã o

Vem e me aquece
Estou com frio
Sinto o gelo ruim
Da triste solidão
Ela não se esquece
Entra no vazio
Desafeto do sim
Rasga mais um não
Seu som estremece
É a ferida no cio !
Tal dor de marfim
Sem vez ao perdão
Deságua na prece
Sobre a Cruz

Um bom peregrino
Pelo mal se seduz
Na mão d´um cretino
Que ao erro induz
Culpando o destino
Pela perda da luz
No seu desatino
Se esquece da cruz
E seu mártir divino

quinta-feira, abril 23, 2009

As portas

A porta que se abre
Deixa entrar a boa presença
Mas não evita a má companhia
Nem nega acesso à descrença
Mesmo entreaberta pela mania
Ainda assim é vão da esperança
Abertura para a vida

A porta fechada
É um não ao fluir do destino
Representa a certeza do medo
Lacre das potencialidades
Do que podia ter sido
E nunca foi ou será
É bloco inerte e entristecido

A porta quebrada
É o amor descontrolado
É moeda que não foi cunhada
Ferida da vida pelo bandido
Obra de fuga do traidor
Ou símbolo do abandono
A sangrar tal um país ferido

terça-feira, abril 21, 2009

O Delegado Dadeu

O casal de feições italianas chegou de ônibus na rodoviária de Porto Alegre, indagaram as horas a um senhor bem trajado que respondeu - dezesseis horas – que eles custaram a entender , pois conheciam simplesmente como quatro da tarde – “Dado” aguardava os pais ansioso e nem bem desembarcaram saíram em disparada para tomar o primeiro ônibus, (táxi era muito caro), com destino ao Bairro da Azenha, onde ficava uma antiga pensão que hospedava os jovens do interior que vinham cursar a Academia da Polícia Civil.

Chegaram na casa antiga e “Dado” logo foi pedindo à dona autorização para que os pais pudessem “se lavar” e trocar de roupa, afinal a cerimônia de formatura estava marcada para iniciar às 19:00 horas e ele seria um dos novos “Investigadores” de Polícia, um cargo que posteriormente foi extinto lá pela década de oitenta, ficando a Polícia Civil formada apenas por Escrivães, Inspetores e Delegados.

Terminada a cerimônia, “Dado” convidou seus pais para comer grelhados numa churrascaria popular próxima ao Quartel do Corpo de Bombeiros e, para felicidade da família ali iniciava-se a carreira do filho que foi designado para trabalhar em diversas cidades pequenas do norte do Estado. Cidades onde existia uma Delegacia de Polícia, porém jamais houve um único Delegado no comando – no máximo aparecia algum uma vez por mês , apenas para assegurar o recebimento de um extra pela “substituição” ...

Por onde passava, portanto, o Investigador era conhecido como o “Delegado Dadeu” , que deveria chamar-se Tadeu , mas foi mais uma vítima dos velhos oficiais de registro civil – descendentes de italianos que trocavam a letra “t” pelo “d” , da mesma forma como os árabes trocam o “p” pelo “b” . Mas como um “dado” lembrava a figura de um cubo com “lados diferentes” , julgou que não seria respeitável ser conhecido pelo apelido de “Dado” , o que transformava “Dadeu” numa opção mais segura, não obstante a carga melancólica da origem do nome ...

O Delegado Dadeu colecionou ao longo de quase trinta anos de Polícia inúmeras histórias, mas como o espaço do contador de “causos” é sempre limitado, vamos aqui nos ater aos mais curiosos. O primeiro foi quando atendia num lugarejo que durante a chamada “onda de emancipações” virou município autônomo, mas cuja “cidade” não passava de uma única rua , pavimentada apenas numa linha reta de cem metros, exatamente à frente da Praça, da Igreja e da sede da Prefeitura Municipal .

Certa ocasião acamparam na cidade vigaristas que vendiam herbicidas e insumos agrícolas falsificados no Paraguay , tidos como homens ricos, aliciavam moças e faziam promessas de emprego e passaportes para a boa vida na cidade grande. “Chico do Mato”, conhecido “abigeatário” – (ladrão de gado) da região negociou com os estelionatários sua filha mais velha, “Pita”, de apenas 16 anos, num “pacote fechado” para três dias de amor, recebendo em pagamento seis notas de cinqüenta dólares norte-americanos.

Primeiro ele se exibiu bastante nas “pencas” e canchas de bocha, mostrando o dinheiro estrangeiro, mas no dia seguinte como não havia onde trocar, “Chico do Mato” necessitou viajar cento e cinqüenta quilômetros até uma cidade pólo para realizar a operação de câmbio da moeda e eis que chegando lá, foi constatada tratar-se de moeda falsa. Enfurecido ele voltou à cidade disposto a terminar com os estelionatários, mas evidentemente quando chegou não encontrou mais ninguém ...

Foi quando se deslocou para a Delegacia onde , assaltado pela fúria , “Chico do Mato” narrou a história nos mínimos detalhes , e ao final o “Delegado Dadeu” , como convém, incontinenti , deu-lhe ordem de prisão por exploração sexual de menor, colocando o vilão direto para o xadrez . O caso repercutiu tanto que nosso policial – prestigiado - foi transferido para um outro lugarejo, digamos “menos pior” ...

Nessa outra cidade, próxima de um grande centro produtor de máquinas agrícolas , havia rádio , hospital e até um pequeno centro comercial onde existiam confortos como vídeo-locadora , lotérica, banca de revistas e até um supermercado. No “super” da cidade trabalhavam dois gringos vindos da roça, muito tímidos e sensíveis. Eram “raios” de feios e com pouca sorte no amor, eles compravam revistas pornográficas e se excitavam lendo depois do expediente.

Numa ocasião a dupla depois de ler um exemplar de quadrinhos “gay” resolveu combinar um troca-troca para se realizar após o expediente, quando se deslocaram para a casa de um deles com uma dúzia de latas bem geladas de cerveja . Chegando em casa, depois de beber todas, estabeleceu-se a discussão de quem seria o primeiro a desempenhar o papel ativo, e a sorte foi decidida no par ou ímpar. O mais novo, um gringo retaco e cabeludo literalmente enrabou o mais velho e após terminar pediu para ir ao banheiro se lavar e voltar para ultimar o acordo. Só que depois de estar dentro do quarto de banho pulou a janela e fugiu pelos fundos da residência.

Seu parceiro, sentindo-se ultrajado, “cabeça de bagre” de um “estelionato sexual” , buscou a Delegacia de Polícia onde contou toda a história para o nosso “Delegado Dadeu” – O agente da Lei, contendo-se para não soltar gargalhadas , teve de fazer o registro do Boletim de Ocorrência e remeter o expediente para a Promotoria de Justiça que providenciou numa medida judicial impedindo o contato físico dos moços , diante do clima de vingança estabelecido. Dizem que dias depois ambos sumiram da cidade ...

NOSSO MUNDO

Quando todos os outros saírem
E não reste mais nenhum rastro
Da gente que me fez sentir medo
Então te convidarei para entrar
Beijarás o solo sagrado do lugar
Que é pátria sem cor e bandeira
Nunca mais ouviremos os gritos
Eles nos empurravam até o horror
Livres da força má das multidões
Faremos nossa prece em silêncio
E só daremos ouvidos para o ar
Refugiados na copa de uma árvore
Ali embaixo estará nosso mundo
De mais ninguém ,
só nosso ...

segunda-feira, abril 20, 2009


A Pausa

Alguém , não vou contar
Perguntar ninguém ousa
A identidade d´esse quem
Sempre sofre por ti
E tu bem o sabes ,
Que é isso sim
Ela vive a te ajudar
Mas não se envolve
Lá onde está a causa
Da dor que te faz refém
Não tem jeito ,
é mesmo (e sempre) assim
Portanto, para te recuperar
Pára logo e faz a pausa

sábado, abril 18, 2009


Vacina contra o mar

Onde moras não há um mar
Gostas de um banho de sal
Conforma-te este é o teu lar
E isso às vezes te deixa mal

Mas na vida nem tudo é par
Acalma-te é tua terra afinal
Se me aturdes rumo ao bar
Amada não me queiras mal

Ou outro amor vou apalpar
Mesmo que num lugar trivial
Onde possa enfim encontrar
Cálido amor imune ao litoral


Na foto IVAN CEZAR , com as filhotas Jéssica e Thaís - no pano de fundo o Rio Uruguai

DIVULGAÇÃO - Ivan Cezar no OVERMUNDO
Visite outros trabalhos do autor IVAN CEZAR em http://www.overmundo.com.br/perfis/ivan-cezar

sexta-feira, abril 17, 2009


COISAS DA BOLA

É um show de bola
Se ela é boa
Dá gol no fim
Entretanto
A bola ruim
Rebota
Enquanto ela
Boa até o rim
Rebola
Então a boca
Bebe da boa
Ao gim
Até que a língua
embola ...

quinta-feira, abril 16, 2009



Prosa com o tempo

Minha prosa é curta,
porque curto é o meu tempo
e as horas que me sobram,
cobram um preço
É valor alto
que bem sei
não vou pagar .
- E você aí ?
- Tem tempo ?
- Tem prosa ?
Siga esta minha receita,
a prosa até encurta,
mas ninguém furta
teu direito de questionar
o ruído cruel d´um relógio
contra ele
um bom brado engrossa !
Afinando a prosa ,
não duvide ,
que o tempo se rende .
Foto mostrando a fronteira Sant´Ana do Livramento/BR
e a cidade uruguaia de Rivera, na década de 1940 .


ADEUS

Adeus meu recente amor
Só te peço um aperto de mão
Será uma despedida sem dor
Quero mitigar toda a emoção
Agora já morreu nossa flor
Asseguro não era a intenção
Mas teu jardim ficou incolor
E não cabe no meu coração
Um amor morno e sem cor

quarta-feira, abril 15, 2009

O cotidiano é um tal mano que vira um ano e causa dano até que a gente entra pelo cano ...
इवान सज़र

terça-feira, abril 14, 2009

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D I V U L G A Ç Ã O
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Se desejar conhecer outros trabalhos deste autor visite em

http://recantodasletras।uol.com.br/autores/ivancezar

Poesias – Contos e Crônicas esperam por você ; apareça !
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segunda-feira, abril 13, 2009



Frustração

Por pensar em teu amor
Desajeitado encolheu
Qual planta nova
Isolada ao breu

Não buscava um favor
Ou desejo de alcova
Tudo o que desejava
Era dividir sol e céu

Mas só sentiu o ardor
Semente isolada na cova
Sem luz e sem escarcéu
Murchou talo e flor

quinta-feira, abril 09, 2009




Fim de semana

Durante todo o final da semana
que virou pretérito e passou
Pensei só em mim
e o dediquei à própria vida
Abandonei o vício
de cuidar dos outros
Meditei ao andar insensato
das horas idas
Aos ruídos simétricos
e sem nenhuma graça
tão próprios aos relógios
Misturou-se o som ainda vivo
de meu coração
Mas não eram só esses
os barulhos havidos
No interior de meu ser
sobreveio uma explosão
E como é comum ao caso
também ouvi murmúrios
Pois em toda tragédia
sempre há um vilão
Durante o fim de semana
eu colecionei lamúrios
Inventei mil pretextos
para sair da depressão
Mas se fez a noite
e a segunda feira invocou
a presença dos outros
Eles são implacáveis
em lembrar a obrigação
E renasceu em meu ser
o algoz dos exageros
Que enfrenta a semana
com muita obsessão
Na espera dos sábados
e domingos vindouros

quarta-feira, abril 08, 2009




Sonho Maluco


Num campo de capim arrepiado
Estando o mistério espalhado
Corria um velho mal encarado
Brilhava longe a lâmina da espada
Que num medo já revelado
presumia-se muito bem afiada
Vendo que ia me ferir o desgraçado
Não escolhi o norte da disparada
Avistei a ladeira como uma aliada
Só parei após sumir o invocado
Quando voltou a respiração afetada
Saí em busca de uma outra balada
Estava já refém de renovada bobeada
Mas alguém deu generosa sacudida
e suando gelado eu fui acordado ...

terça-feira, abril 07, 2009



Lágrimas

As lágrimas
que foram contidas
Fazem consagração
ao aborto d´um choro
Pelo frágil grão de dor
proibido de brotar

As lágrimas
vertidas na escuridão
São o pranto engolido
Em doses de bebidas
Licor meio amargo
degustado ao anoitecer

As lágrimas
que choramos a dois
Mistificam as horas
Da espera entristecida
Antes do sepulcro
do inevitável amanhecer

domingo, abril 05, 2009




Rimas

Adeus minha sonora rima
Despeço-me de ti
Temporariamente ...
Mas prometo te reencontrar
Em alguma esquina
A sós, evidentemente !
Porque um poema de prima
É voz afinada a cantar
Todo poeta não termina
Seus versos rudimentarmente
Tem de ter um dó-ré-mí
Mantendo a arte lá encima
Assim é que culmina o versejar
Alegre ou melancolicamente
O poema tem de ter viva a cisma
de ser sonoro por sí .

sábado, abril 04, 2009




Para Celina Vasques, talento puro de Manaus, com muito carinho, dedico este poemeto - Ela vai entender ...

Agradecimento


Agradeço à poeta menina
Não conhecia o caminho
Desejava uma música fina
Para os versos em ninho
Agora a poesia é dançarina
Salve o acorde vizinho
Obrigado Celina !

quinta-feira, abril 02, 2009





Vinho e musa

Uma taça daquele vinho
Foi servida à luz da lua
No calor do teu ninho
Com o afago da mão tua

Sentí todo teu carinho
E tocando tua pele nua
Explorei devagarinho
Em teu corpo cada rua

E foi tanto o bom vinho
e tão divina a musa
Que só faltou no ninho
Esta canção intrusa

quarta-feira, abril 01, 2009



Tesouros


Não folgues em pensar
que toda fortuna
Encontre definição
em alguma preciosidade
E resplandeça no brilho
de um nobre metal
Não te curves ao valor
da moeda cunhada
Mais riquezas
despistam o encanto
do absoluto
Vão buscar nos mistérios
umas outras relíquias
Garimpando pepitas
aos olhos que querem ver
E que também clamam
Por ser vistos
de outro ângulo ...
Buscas tantos tesouros
e cavas tantos buracos
Covas na areia
e muitas valas abertas nas almas
Quantas delas se fecham vazias ?
ou se esvaziam ?
E a fortuna qual corpo
sem forma
até se deforma ...
Ganha ares de miséria
quando se vai um amor
Ou no relógio que se apaga
para o melhor amigo
Por isso é que torna-se tão difícil
ter os tesouros
Não é por outra razão
que a riqueza é metabólica
Ausente o equilíbrio
a balança logo delata
... e dilata
Segue, portanto,
uma prática
comum a todo pobre
Aprende a contar
e a guardar
todos teus tesouros
Sobretudo a sutil riqueza
que não cunha moeda
E não cabe dentro d´um baú
que aceita o esquecimento


Um passeio

Um passeio diferente – só um passeio invulgar – bastaria para que aquela tarde não tivesse sido tão terrível na história do mês de julho de dois mil e três. Sonhava passear, sair pelos mares do nordeste, conhecer as dunas de areia de onde se jogam os amantes em declive acentuado rumo à felicidade.

Como queria estar na proa de uma jangada , contemplando a boa onda que lava os pés,sem apresentar a conta do serviço.

Desejava tão intensamente percorrer as ruas da cidade velha do Recife, os antigos casarios, os prédios históricos de Olinda. Em sonhos deslizar nos tobogãs de água de Fortaleza, ir de encontro com a brisa morena de Iracema.

Mas alguém , de divina casta superior , queria que o mês de julho fosse marcado no calendário em letras vermelhas só para outros e não houve passeio algum. Houve, sim, muito frio , vento gelado , que precedeu a histórica geada que inaugurou o dia seguinte.

A fina camada de gelo acordou um ser frustrado, com a alma tremendo de frio ... que se lavou rapidamente, qual vento aragano , escovou os dentes em velocidade alucinante e bateu um café forte, suficientemente quente para disfarçar a tremedeira e sair rua afora, para um passeio , mais um dos tantos passeios que se renovam na rotina da vida, no capítulo de julho, do ano de dois mil e três ...


De Branco

Veste-te de branco
Na cor da neve
Deixa que teu corpo
Se revele
Pinta-te de branco
E descansa bem leve
Na tua cama
Verás que ela ferve
Liberta o branco
Voa livre pela pelve
Que tua alma
Se serve



Deixo-lhes este conto "meio erótico" ...


Bota mais ...


Evidentemente que nossa “estória” possui nomes e lugares fictícios, afinal o escriba não quer se comprometer mais do que no limite de suas impulsividades com o vocabulário. Na cidade de São Trento, que fica a uns trezentos quilômetros a sudoeste de Porto Alegre vivia um casal de caipiras. Ele se chamava Oriuvando e ela Genoveva.
O casal migrou do campo para a cidade, pois movidos pela ambição pensavam que iriam progredir mais vendendo frutas e legumes na feira do que cultivando-as na roça. Afinal dizia Oriuvando – “Muié, a gente nem percisa di pagá alugué na rua pra modu di vendê as fruta” . Limitaram-se a alugar um barraco na periferia, onde se acomodaram e para onde retornavam à tardinha depois do trabalho e costumavam deitar para fazer sexo, ao entardecer,já que no outro dia a saída era na madruga para disputar espaço na feira de rua . A atividade sexual logo foi descoberta pelos pirralhos da vizinhança que transformaram aquilo num espetáculo erótico e se reuniam acomodados na proximidade da janela para escutar os gemidos e o som do amor em profusão pós-feira ...
Certa tardinha, trazendo um volume de abóboras que encalharam e que estavam já muito maduras , portanto já prestes a estragar, o casal resolveu não perder o produto e reduzir o prejuízo fazendo doces – tipo geléia – para vender em vidros na feira.
Chegando em casa colocaram tudo n´uma grande panela e se puseram a confeccionar o doce de abóbora. Genoveva com uma colher de pau na mão e Oriuvando encarregado de ir dosando e alimentando a panela com açúcar e pedaços picados da abóbora, até o momento de se atingir o “ponto” do doce.
Na janela, postados com os ouvidos colados à madeira do casebre, os pirralhos ouviam os gritos de Genoveva que exclamava – “Bota mais Oriuvando” , ao que ele respondia – “Mexe , mexe Genoveva” ... para excitação total da platéia que do lado de fora imaginava uma cena bem diferente da que ocorria no lado de dentro .