quinta-feira, julho 13, 2017


Contrapartida

Como poderias lembrar de mim
Se quando o vento estremeceu
Todas as bases de tua casa
Busquei abrigo no latifúndio
Como poderias brigar por mim
Se tu apanhavas covardemente
E eu temeroso pela cova rasa
Encontrei o abrigo na covardia
Como poderias chorar por mim
Se quando o drama se escreveu
Eu viajava num foguete da nasa
Destilando meus sonhos fúteis
E eis que na contrapartida
Humilhantemente eu te vi
Lembrando, brigando e chorando
Por mim ...

terça-feira, junho 20, 2017

Não há espaço para a poesia
No momento estamos tentando salvar
Salvar um País
Seu povo está sendo destruído
O Brasil sangra nas mãos de poucos
Que não morra a nossa esperança
Por dias melhores
É o que nos resta - a luta ....

terça-feira, março 07, 2017

Séculos

Desbrava-se o século vinte e um
Cabe-me uma parte do bolo
Dizem que são anos novos
Para mim são simplesmente anos
Bradam que são outros tempos
De renovação, de expiação
Os esotéricos
Os filósofos
Os cientistas
Todos apresentam suas teses
E eu aqui apenas vivendo
Devagar, um dia de cada vez
Ocupando a vaga que me cabe
No estacionamento secular
Não sou totalmente
Nem esotérico
Nem filósofo
Nem cientista
Só sei que acumulo anos velhos
E que a antiguidade mofada
Dos tempos e dias passados
Fazem enferrujar  os conceitos
Apenas vivo o tormento humano
De formular novas perguntas
Talvez as mesmas que esperam
Esotérica, científica e filosoficamente
Dentro do Baú dos séculos

Pelas ingratas respostas              

quinta-feira, junho 30, 2016

Soneto Problemático

A solução de problemas
Sempre é um problema
Existem muitas receitas
Gratuitas ou vendidas

Cada qual com teoremas
Bulas e doses perfeitas
Para as almas rendidas
Banca de estratagemas

Tudo é cerne, é problema
Mas dores não são seitas
E vozes não são feridas

As teses são todas prontas
E o problema em si é a gema

Das problemáticas saídas

quarta-feira, setembro 16, 2015

Palhaços Marrons




Oráculo de lágrimas
Fui ao sepulcro dos sons
Garimpar gargalhadas

Na tumba de velas velhas
Vi imagens descoloridas
E sombras das lástimas

Eram palhaços marrons
Com as alegrias passadas
A exalar risadas póstumas

quinta-feira, julho 16, 2015

O vento e as flores

Quando o vento procura o furo
É porque não gosta de obstáculos
Precisa levar o aroma das rosas
Que ele viu florescer
Para o além das linhas do muro
Necessita abrir os seus tentáculos
Dar sementes para outras covas
E depois vê-las nascer
Ainda que em ambiente escuro
Ele promove vistosos espetáculos
Afaga maciamente as flores vivas
Porque elas vão morrer


quarta-feira, julho 01, 2015

Soneto a um porco

Corte nobre de pernil defumado
Infeliz parte do suíno sacrificado
Mesa farta de abastado comensal
Delícia para um jantar sofisticado

Será tudo perdoado, tudo normal
Far-se-á a ceia com retalhos do corpo
É da cadeia alimentar esse fim fatal
Pois afinal  ,  era só um pobre porco

Depois, o  afago no perfumado gato
Para ele só o carinho e muito amor
Pois é bicho mimoso alheio ao prato

E no outro lado, na direção do mato
Ladram cachorros guardiães da flor
Ávidos pelos restos do porco ingrato

sábado, abril 04, 2015


Irrelevância


Sinto profundamente
Mas vou te dizer
Entendo teu levante
Tua revolução
Que é justa

Teu sonho de fazer
Da terra o firmamento
O bem levado avante
É a tua devoção
Que é justa

Mas logo ali há o poder
E tua voz é irrelevante
Não causa comoção
Diz a força rudemente
Que é justa

Tua idéia só é relevante
No âmago do teu ser
Que é de bom coração
E repete mecanicamente

Que é justa

segunda-feira, março 16, 2015

Sobre tua dor


Respinga em mim a tua dor
Latejando em silêncio
Nas profundezas invisíveis
De alguma parte incolor
Inaudita e inabitável
Do meu ser
Queria ver ao menos a flor
Única sobrevivente
Do jardim oculto do ontem
Com seu aroma indolor
E o resíduo de alguma cor
Para se ver
Mas tua dor pinga e respinga
Em palavras indizíveis
Que ao longe ecoam
Enquanto busco respostas
Na utopia intocável
Do não ter ...

terça-feira, dezembro 16, 2014

R O U P A G E M 



No primeiro verso
de tiro curto
Rasgo a tira
de uma fina seda
Fiapo legado
de impreciso corte
Só um pedaço
de pano em surto

Até porque a peça
Se inteira é fugaz
A força da mão
decreta a morte
E num outro verso
o fio se desenrola
Sem o modista
o pano é sem sorte

Costuro só os retalhos
Sobras da paz
Bem pude aprender
que qualquer fio enreda
E vestes de luxo
atraem o furto
Raso fim do poema
para roupa de porte