quinta-feira, julho 16, 2015

O vento e as flores

Quando o vento procura o furo
É porque não gosta de obstáculos
Precisa levar o aroma das rosas
Que ele viu florescer
Para o além das linhas do muro
Necessita abrir os seus tentáculos
Dar sementes para outras covas
E depois vê-las nascer
Ainda que em ambiente escuro
Ele promove vistosos espetáculos
Afaga maciamente as flores vivas
Porque elas vão morrer


quarta-feira, julho 01, 2015

Soneto a um porco

Corte nobre de pernil defumado
Infeliz parte do suíno sacrificado
Mesa farta de abastado comensal
Delícia para um jantar sofisticado

Será tudo perdoado, tudo normal
Far-se-á a ceia com retalhos do corpo
É da cadeia alimentar esse fim fatal
Pois afinal  ,  era só um pobre porco

Depois, o  afago no perfumado gato
Para ele só o carinho e muito amor
Pois é bicho mimoso alheio ao prato

E no outro lado, na direção do mato
Ladram cachorros guardiães da flor
Ávidos pelos restos do porco ingrato

sábado, abril 04, 2015


Irrelevância


Sinto profundamente
Mas vou te dizer
Entendo teu levante
Tua revolução
Que é justa

Teu sonho de fazer
Da terra o firmamento
O bem levado avante
É a tua devoção
Que é justa

Mas logo ali há o poder
E tua voz é irrelevante
Não causa comoção
Diz a força rudemente
Que é justa

Tua idéia só é relevante
No âmago do teu ser
Que é de bom coração
E repete mecanicamente

Que é justa

segunda-feira, março 16, 2015

Sobre tua dor


Respinga em mim a tua dor
Latejando em silêncio
Nas profundezas invisíveis
De alguma parte incolor
Inaudita e inabitável
Do meu ser
Queria ver ao menos a flor
Única sobrevivente
Do jardim oculto do ontem
Com seu aroma indolor
E o resíduo de alguma cor
Para se ver
Mas tua dor pinga e respinga
Em palavras indizíveis
Que ao longe ecoam
Enquanto busco respostas
Na utopia intocável
Do não ter ...

terça-feira, dezembro 16, 2014

R O U P A G E M 



No primeiro verso
de tiro curto
Rasgo a tira
de uma fina seda
Fiapo legado
de impreciso corte
Só um pedaço
de pano em surto

Até porque a peça
Se inteira é fugaz
A força da mão
decreta a morte
E num outro verso
o fio se desenrola
Sem o modista
o pano é sem sorte

Costuro só os retalhos
Sobras da paz
Bem pude aprender
que qualquer fio enreda
E vestes de luxo
atraem o furto
Raso fim do poema
para roupa de porte

quarta-feira, setembro 17, 2014



TIRETA CANDENTE


Não mais
acredito
No encanto
de estrelas
Cadentes
No entanto
Aclarado à luz
de velas
Suo descrentes
calores
No mais
Agora
sempre repito
Incandescentes
Ideias

quarta-feira, setembro 03, 2014



Recipiendário


Nem sempre desejou
Tampouco pediu
Mas eis que recebeu


 Não protestou
Nem mesmo balançou
Tampouco faliu
 

Mas olhou para o céu
E então reclamou ...

segunda-feira, julho 07, 2014

Calendário 

Viver  é como viajar
Pelas caixas do calendário
Como se encaixar
Em dias ditos úteis

Ou em inúteis vias
De papéis de formulário
Não é simples contagem
Nem uma mera estatística

É um vai-e-vem
Da jornada fantástica
Correria e desvantagem

Onde sempre se tem
Números para superar
E um feriado no obituário

quinta-feira, janeiro 16, 2014

INCONCLUSÃO




Em que lugar do grão armário
Estará guardada a última linha
Que conclui o libelo prescrito

Talvez nem seja ponta d´espinha
De um texto que não foi escrito
É incompleto, é vazio e temerário

Verso parido por aluno primário
Que no sexto ainda não detinha
A chave que dá o acesso restrito

Talvez incesto de vocábulo áureo
Alfabeto frio de moço de rinha
Briga inconclusa de outro distrito

sexta-feira, outubro 25, 2013

Resguardo 

Eu me resguardo

Em casulo invisível

Alternando ruas

Pois é sabido que existem

Nuas vozes no aguardo

No pó do imprevisível

Que habita entre as duas

E por vezes me anulo

Porque medos persistem

E eu me resguardo

Ah, o destino tem as suas ...

Não caminho e nem pulo

Fujo do vento terrível

Em silêncio e atordoado

Volto quieto ao casulo