sexta-feira, abril 02, 2010

Apocalipse

Nem bem o sol raiou e deu para ouvir o barulho do caminhão e um grito do operário que recolhia o lixo da casa, seguindo sua maratona pelo norte da rua . No dia anterior, o médico havia determinado um repouso e , como convém , a desobediência de advogado, havia produzido horas de trabalho examinando peças de um processo complexo. Sim, um processo complexo, que para quem não sabe, se resume em briga grande ...
O dia se estendeu, e nele – como já sucedera em tantos outros - foram inseridas passagens de diversas outras pessoas . A empregada doméstica e o carteiro passaram pela casa e deixaram seu fragmento de vida . As crianças cumpriram sua rotina na escola e os vizinhos produziram os mesmos ruídos cotidianos e rotineiros. A vida – já devem ter percebido - produz uma série de imitações, por vezes impiedosa ...
Na mídia a repetição monótona dos mesmos fatos , mudando apenas o palco teatral e os protagonistas da novela viva, na qual se inseria também o escritor que instigado pela fria observação do panorama, não tivera outra inspiração que não se debruçar sobre as palavras , manipulando-as para gestar um texto capaz de expressar esse rude momento e tornar público o viés de um conflito interior .
Existe sempre uma partícula do calendário reservada para que o poeta possa expressar sua revolta – seu descontentamento – simplesmente porque as hierarquias sociais não permitem que se encontrem para filosofar todos esses personagens que , enclausurados em suas celas egocêntricas, fecham o circuito daquilo que convencionamos chamar de dia – mais um dia – no somatório do tempo que cabe nas quatro letras da palavra que define essa adição - vida . . .
E se tudo terminasse, como anunciam repetidamente os fatalistas ... e se o apocalipse estivesse marcado para o próximo minuto ? – Onde caberia o lugar diferenciado para as reflexões do filósofo ou para os textos gerados pela angustiada verve ?
Ah, sim ! – é provável que no asteróide incandescente ou na profundidade da inundação esteja sordidamente oculto o instrumento da isonomia e um nível sobrenatural coloque todos os protagonistas dentro de um mesmo espaço, sem lugar para a hierarquia das compreensões . Quiçá nesse momento, apenas o lixo que o operário recolheu pela manhã, sobre como o único conceito capaz de ser distribuído entre todos os miseráveis seres que por longos séculos insistiram em não entender o quão igual é a raça humana perante essa incógnita que se chama universo .
Universo , que alheio às vaidosas ou indiferentes ilações , nos gera e nos traga e pelo qual inexoravelmente serão engolidos todos os conceitos vivos ... nem mesmo o verso – a poesia – ou a brilhante tese cientifica sobreviverá a esse ataque feroz – o julgamento final . O fim ...

12 comentários:

Ianê Mello disse...

Bom texto, meu amigo.

Que seu feriado seja de muita paz!

Grande beijo.

Pérola disse...

Brilhante o seu texto,confesso q me entristece tal situação pq se pensarmos bem, o fim está se aproximando e numa velocidade bastante assustadora.O fato é q temos q continuar a nossa trajetória e esperar com esperança que o enredo mude rs.
Uma feliz Páscoa meu querido.
Beijokas.

Almirante Águia disse...

Pois é amigo Ivan, vamos fazendo os nossos dias sem muito alarde, creio que devamos continuar em frente, buscar a qualidade de vida acima de tudo, sem pensarmos em um fim próximo ou mais adiante.

Há um filme bastante interessante, com Nicolas Cage - Presságio - o foco principal deste filme é o fim deste planeta, sem considerar as pessoas, ao final um casal de crianças representa a Humanidade no Éden.

Isto me faz pensar em continuar sempre, nossos esforços e sacrifícios devem ser direcionados a Colônia.

Bom final de semana

Rosan disse...

oi
gostei desta tua forma de mostrar o cotidiano, e percebi que não estas a obedecer ao medico.
se o fim está vindo, não temos muito a fazer a não ser seguir adiante vivendo enquanto dá, e penso sem maiores alardes, não há porque sofrer antecipadamente, melhor esperar para ver o que vai vir.

feliz pascoa.

beijo

Pérola disse...

Um lindo dia meu querido.
Beijos.

Nydia Bonetti disse...

Que texto impressionante, Ivan. Muito bom. É isto, exatamente. Boa Páscoa! Abraços!

Nilza disse...

Querido Ivan,

Texto abrangente, quase universal, mas não sou afeita a tese armagedon ou apocalipse, nós é que inexoravelmente acabamos e que viver é nada menos que envelhecer e que envelhecer é tão somente a paródia da vida.
Seguirmos ou não conselhos, linha de condutas, é optativo e varia de acordo com o estado de espírito, só que últimamente tenho perebido que a vida real é bem mais teatral que as que se ensaiam nos tablados.

Um beijo.

Nilza disse...

Corrigindo: percebido
beijos

Pérola disse...

Um feliz Páscoa para ti.
Deus abençõe vc e sua família.
Muita paz,muita luz e muita sabedoria.
Um beijo borrado de chocolate.
Beijokas.

Pérola disse...

Olá meu querido,eu procurei pela sua indicação mas vc esqueceu o mês do qual vc postou pois ficaria mais fácil de encontra-lo.Vou adorar ler pode ter certeza.
Um beijo grande.

Juscelino V. Mendes disse...

Excelente o seu apocalipse, Ivan! A tese científica restará dos escombros da humanidade em transe!
Abraços.

Carmem disse...

Sinto-me envaidecida pela sua visita.
Me agrada que goste da espontaneidade que usei.
No dia-a-dia, temos que saber ser mais comedidos. Porém, penso que estes espaços, a gente os abre precisamente para ser como quer, como gosta, e não ser convencional. E fico feliz por ter gostado do blog, também me encantou o seu "Apocalipse", já sou sua fã-seguidora.
Espero sua volta.
Eu voltarei, com certeza.
Abço. Carmem