quarta-feira, outubro 21, 2009






A Usina “Cuñapirú”
Uma boa polêmica vem plasmada nesta crônica que pretende saborear um prato quente de história , temperado com pimenta , aliás, da bem forte , daquela que quando agregada ao alimento provoca bastante o paladar ... ou que pelo viés literário, acenda no texto o necessário calor do convite à leitura crítica.
No Brasil, pátria amada , circula a informação de que a primeira usina hidrelétrica da América Latina foi construída na terra das Minas Gerais, em Juiz de Fora , onde foi erguida a usina Marmelo Zero, que teria sido inaugurada entre 1888 e 1889 . Foi a primeira experiência de geração de energia elétrica via recursos hídricos em solo brasileiro.
Disso não pretendemos duvidar. Mas , e aí vem o contudo, certamente, a hidrelétrica (ou seria hidroelétrica) “Marmelo Zero” não foi, definitivamente a primeira usina da América Latina,como pretendo demonstrar aqui nesta singela crônica.
Em 1882 uma empresa de mineração inglesa seduzida pela exploração de ricas jazidas de ouro na região norte do Uruguai, próximo à fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul, iniciou a construção daquela que foi – aí sim – a primeira de todas as usinas hidrelétricas da América Latina, instalada no povoado de “Minas de Corrales”, distrito do Departamento (município) de Rivera, há aproximadamente cem quilômetros da fronteira brasileira da cidade de Sant´Ana do Livramento/RS.
Inaugurada, portanto , no mínimo seis anos antes da usina mineira, represando as águas do Arroio “Cuñapirú” , a hidrelétrica alimentou durante muitos anos as máquinas que beneficiaram algumas toneladas de ouro, metal precioso que seguiu o mesmo caminho das riquezas extraídas por estrangeiros na América Latina – a Europa.
Diferente da usina mineira que recebeu verbas para a preservação do acervo histórico, a “Usina Cuñapirú” está em ruínas , degradando-se tanto quanto se degrada a economia do pequeno povoado de “Minas de Corrales” , onde o pouco ouro que resta está sendo ainda extraído (ou seria esvaído).
É lamentável que um patrimônio histórico dessa envergadura se encontre em tal estado de abandono , constituindo-se em mais uma clara demonstração de que a globalização é um processo que visa apenas e tão só afunilar as riquezas , pois nenhum grupo econômico estrangeiro , dos tantos que operam por aí , demonstrou o mínimo interesse em restaurar e/ou preservar a história.
Aqui, ao menos, uma crônica que visa consagrar a verdade e que deixa para os leitores a história apimentada de duas realidades relativas a duas velhas e pioneiras usinas: a mais antiga do Brasil – restaurada – e a mais antiga da América Latina – abandonada – no norte do Uruguai, no pobre e bucólico povoado de “Minas de Corrales”.

2 comentários:

Nilza disse...

Independente do questionamento do pioneirismo, ainda bem que a nossa foi restaurada, e olha que é coisa rara de acontecer, o governo investir em restauração de sua história, poque aqui em Belém, muitos prédios estão em ruínas, desabando literalmente, e pior, já tombados como patrimonio histórico, e nada acontece... sorte melhor teve a Usina de Minas gerais.
Quem não preserva seu passado, geralmente é displicente com o futuro.
Beijos

EFGoyaz disse...

História bastante interessante. As divergências são o que de há de mais rico na História, pelo menos na minha opinião. Elas estimulam as investigações, descobertas e debates. E se brincar, talvez vão descobrir outras pioneiras perdidas por aí, que a História não teve o cuidado nem de registrar. Fico triste pelo descuido e descaso, que parece ser típico do ser humano. Concordo contigo que só se restaura aquilo que for do interesse capitalista, com raríssimas e honrosas exceções. Mas até mesmo pela beleza do prédio, queira Deus que não demore muito a esse exemplar seja recuperado.